domingo, 11 de março de 2012

Attack the Block



Olá, meus aliens peludos!
Desculpem-me pelas postagens relapsas, mas não tenho tido NENHUMA ideia para novos contos e também raramente penso em algum outro tipo de texto para fazer - ainda mais porque eles tendem a ser ignorados aqui -, portanto, acabei deixando isso aqui meio de lado. Também tenho trabalhado mais em outros projetos como romances, o que meio que monopoliza minha criatividade, mas enfim.
O filme de hoje é Attack the Block. No Brasil, como não podia ser diferente, ele ganhou um nome quase literal, mas ainda assim retardado de Ataque ao Prédio. Nome esse que eu prefiro ignorar. Aqui no Brasil ele também foi lançado direto em DVD, no mês passado, então se você quiser assistir, não deve ser difícil de encontrar. Eu o aluguei porque tinha visto o trailer e parecia ser bacana e, realmente, é um filme super legalzinho.
A história gira entorno de Moses, um jovem de 15 anos com cara de 18 que é o líder de uma gangue de meliantes numa quebrada do sul de Londres. Na noite em questão, ele acaba de entrar nos ranks do traficante local e parece estar perto de dar seus primeiros passos na bandidagem pra fora da vida de merda no gueto. Ele e sua gangue assaltam uma enfermeira chamada Sam e depois encontram um monstrinho na rua que eles pensam ser um macaco ou algo assim. Moses mata o bichinho e só depois eles percebem que ele era outra coisa, muito provavelmente um alienígena.
A morte do alien acaba por atrair outros. Dezenas e dezenas de outros que não caem por todo o mundo nem em Londres, mas somente na quebrada do Moses. Mais particularmente no gueto em que eles moram que é um condomínio vertical enorme. Agora, a proteção de centenas de pessoas está nas mãos de seis marginaizinhos pubescentes que vão ter que criar vergonha na cara e se tornar heróis. Isto é Attack the Block.


O único nome famoso em toda a produção é o de Nick Frost (na foto acima), um dos grandes nomes da comédia britânica atual que ficou conhecido no mundo pela sua parceria com Simon Pegg em filmes como Shaun of the Dead, Hot Fuzz e Paul (eu me nego a usar os nomes brasileiros deles também). É muito interessante a parte social que o filme trabalha. Estamos falando de um gueto e de marginais adolescentes. Em todo o elenco relevante do filme, somente quatro são brancos. Todos os outros são imigrantes ou filhos de imigrantes do norte da África.
Isso é mostrado não só pela cor da pele, mas pelos nomes árabes, pelo sotaque carregado misturado com o sotaque londrino e etc. O filme trabalha muito bem o fato de serem crianças e pessoas esquecidas sem transformar a história em drama nem em caso social. E eu achei isso muito bacana. Ao longo dos minutos de enredo, você toma consciência do quanto a favela é ignorada em qualquer parte do mundo. O trabalho com os personagens também é muito interessante. Moses e seus amigos se comportam como os reis da rua e quase ignoram a escola. É um sentimento muito semelhante ao de O Selvagem da Motocicleta, com garotos que sabem que não tem futuro nem oportunidades, fazendo o possível de acordo com suas crenças para terem uma vida melhor, algum destaque e, principalmente, algum respeito e status, já que se se contentarem em ser cidadãos comuns, eles não vão passar de crianças invisíveis.
O roteiro do filme é de um jeito que eu vejo raramento no cinema hoje em dia: rápido, claro, bem amarrado e direito. Ele cobre nada mais nada menos que uma noite na vida dessas pessoas. Uma noite com uma invasão alienígena. E, acredite se quiser, ele é fechadinho, conciso e muito, mas muito bem escrito! A película transborda o espírito de jovens cineastas e jovens atores e isso realmente me cativa bastante.


Outro ponto importante é o tanto que o filme mandou bem com todas as suas limitações. Attack the Block é uma produção independente. Não só isso, como seu orçamento total devia ser o equivalente à dois pacotes de camisinha, dois chicletes e um bilhete de ônibus. E fizeram milagre com isso. Todos os ETs são de CGI e são todos muito bem feitos e estilizados. As cenas de ação e violência, principalmente as que envolvem os monstros de CGI diretamente, também ficaram muito bem executadas, o que às vezes não acontece nem em grandes produções.
Claro que a parte mais cretina e ingrata foi a distribuição, o que explica porque um filme legal desses passa abaixo do radar de todo mundo. Mas não vou exagerar pra vocês. Attack the Block é uma aula de como fazer cinema para jovens cineastas, mas não é um filme que vai mudar sua vida nem nada. É um filme legal, bacana. Nada mais. A forma como ele trata as questões sociais também é interessante, mas ele não é um filme cult de protesto nem de longe. Ele também é de humor, mas é humor britânico, então você não vai ver aquelas coisas retardadas e fáceis de Hollywood.
Enfim, não é nada fantástico nem espetacular, mas faz direitinho tudo aquilo a que se propõe e até um pouco mais. Vale a pena conferir a história da enfermeira Sam e de Moses e sua gangue pra saber se eles conseguem ou não livrar o gueto desses monstros alienígenas.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Cronista

Minha garganta dói.
Estou numa mesa de bar, cercado por idiotas. Fora isso o lugar é bacana, não te obriga a ouvir aquelas músicas ruins que causam dano cerebral. Tem um sujeito insuportável na ponta da mesa. Dei a volta inteira nela pra sentar longe dele. Por causa disso, acabei do lado de uma loira gatinha que está fingindo que eu não existo. Ela acha que eu dei a volta na mesa só pra sentar perto dela, que estou cheio de segundas intenções. Bobinha pretenciosa. Se minha garganta estivesse boa, talvez eu até tentasse, mas no momento é difícil até falar. Às vezes eu não consigo conter um comentário espertinho e lhe dirijo a palavra. Pareço um homem das cavernas tentando se comunicar. Ela faz cara de nojinho. Menina idiota, me dá vontade de esbofeteá-la.
O resto das pessoas não é muito melhor. Boa parte delas é intelectualmente tão estimulante quanto uma porta de correr. Conheci pombos aleijados e gordos mais interessantes do que boa parte delas. Fazer o quê. Tem duas pessoas realmente bacanas que são as culpadas por me tirarem de casa por isso. "Vai ser divertido". Se eu ganhasse vinte e cinco centavos pra cada vez que eu escuto isso. Uma delas está do meu lado. Também é loira e sorridente. Um amor de pessoa. A outra está do outro lado da mesa, meio absorta em pensamentos. Acho que o estômago dela não está muito bom. Provavelmente ficou ruim de ouvir o resto conversar.
Do lado da loira gatinha tem um casal que ainda não é um casal, mas vai ser. O cara arrota pedância e falta mijar nos pés da mesa pra marcar território, mas em sua defesa devo dizer que de fato ele é bonito e atraente, mas não precisa exagerar no espetáculo. Já a menina está com a periquita em chamas. Só sorriso e esfregação no abraço apertado do rapaz. Se ele tiver o mínimo de percepção, a noite pode acabar muito bem pra ele.
Os outros ocupantes não merecem que eu entre em detalhes. Sabe como é. Se você já passou o Carnaval em Aruanã, você conhece esse tipo de gente. Dinheiro no bolso e nada na cabeça. Parecem babuínos conversando e ainda te olham de cima. Esse tipo de gente reforça minha crença de que a humanidade falhou.
Vocês devem se perguntar como eu acabei tão bem acompanhado. Bem, não foi nada de especial. Minha natureza isolacionista me fez ficar dentro de casa por três finais de semana seguidos. Mais um e até eu ficava louco. Daí a minha amiga loira sorridente me chamou pra esse bar. É aniversário dela. Fui mais por consideração, mas também pra romper com meu cárcere privado.
Já se passaram umas três horas. Um bocado de gente chegou e foi embora. Sexta-feira à noite. O movimento no bar é constante. Gente que saiu do trabalho, gente fazendo esquenta pra alguma outra coisa. Eu só estou mantendo um fiapo da minha vida social se movendo. Não sou sociável. Não sou bom com pessoas. Se minha garganta estivesse boa, eu podia até estar sendo engraçado, mas a dor e a inflamação só me deixam de mau humor.
Por causa da minha dificuldade pra falar, aos poucos vou sendo deixado de lado e passo a ser somente um observador nas conversas paralelas. Às vezes, quando sou requisitado, só respondo com acenos de cabeça, sorrisos e caretas, já que pra falar dói. De lado, presto atenção na conversa e me concentro no meu suco. É, suco, eu não bebo. Dois Neandertais na mesa fizeram piada sobre isso, respondi com o máximo de sarcasmo que meu pai era alcoólatra. É mentira, mas eu não conto isso. Eles ficaram sem graça.
Quando sou deixado em paz, passo a exercer plenamente a minha função de cronista. Veja bem, para ser cronista você precisa desenvolver algumas habilidades de nascença. Uma delas é isso, a camuflagem, a capacidade de sumir contra o fundo. A conversa na mesa flui e eles esquecem que eu estou lá. Isso é útil em todos os lugares. Sabe quando você está sozinho e a festa está uma merda? Esse é o momento de deixar rolar sua habilidade.
Outra necessidade é a chatice. Cronistas são chatos. Por isso, você pode despejar sua verborragia, pedância, exagero, dor-de-cotovelo, insatisfação, frustração, entre tantas outras coisas no papel, e não nos coleguinhas, eles tem mais o que fazer da vida do que aguentar a sua chatice. Assim, quando alguma coisa estiver te incomodando, presa na sua cabeça ou fazendo sua língua coçar, você já tem um motivo pra escrever.
Percepção também é importante. Te permite reparar nos detalhes e nas bobagens. O resto da mesa até agora não percebeu que a minha amiga está com dor de estômago nem que aqueles dois estão fervendo tanto que vão entrar em combustão espontânea a qualquer momento. Percepção também pode ser interpretado como falta de ter o que fazer, é só prestar atenção nas coisas. É o que eu estou fazendo com a conversa dos outros agora, mas o único efeito é a possibilidade dos meus ouvidos sangrarem.
Duas coisas não necessárias, mas que ajudam é reclusão e inaptidão. Se você não tem uma vida social saudável nem é bom em fazer alguma coisa, é provável que seu interesse em fazer crônicas aumente, nem que seja só pra passar o tempo. Ser uma merda em relacionamentos também ajuda. Afinal de contas, se seus relacionamentos forem bons e duradouros, você vai escrever sobre o quê?
E, finalmente, alta tolerância à críticas. Não é ser indiferente, é tolerar. Se alguém te xingar, você finge que não é com você e usa o incômodo pra escrever algo de volta. Mais ou menos o que eu fiz quanto os Neandertais da mesa.
Sou tirado do meu devaneio pela loirinha gatinha do meu lado. Está se despedindo. Me dá um beijinho ritualístico no rosto. Fico olhando ela ir embora. Ela pode ser idiota, mas tem um corpão. Não me censure, olhar não arranca pedaço. Alguém na mesa repara e faz um comentário divertido. Retribuo com um olhar de gelo. O casal em ebulição também resolve se retirar e logo depois minha amiga e quando vejo todos estão indo embora. Vou de carona com minha amiga loira sorridente.
Mal entramos no carro e ela começa a esculhambar todo mundo que tava na mesa. A gente ri e se diverte. Mais uma nota para ser um cronista: é importante ter amigos, eles sabem o que se passa na sua cabeça. Com o carro parado no sinaleiro, ela me olha como se lesse meus pensamentos. " Você vai escrever sobre isso né?". Nem preciso responder. Os amigos já sabem. Última coisa importante, não é preciso se ater aos fatos. O mais divertido desse texto é que ele inteiro pode ser mentira ou pode ser verdade. Ou um pouquinho dos dois. Só você vai saber.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Sequência

Ricardo olhou nervoso pro relógio de pulso.
            Era velho e descascado, mas ele não o trocava nunca. Tinha aquele relógio há 12 anos, nunca parara de tiquetaquear, não ia trocar por outro só porque ele tinha envelhecido, ficado feio. Estava nervoso. A perna direita chacoalhava inquieta havia uns bons quinze minutos, sem parar. Sentia um pouquinho de queimação no estômago, não sabia se era nervosismo ou a comida mesmo.
            Tinha comido uma porção inteira de bolinhos de bacalhau e tomado uma cerveja preta, pra dar coragem. Tinha chamado a Luciana pra sair. Ia levá-la num desses restaurantes chiques, dos que ela tava acostumada. Fora burrice chamar a Luciana pra sair. Ele podia até ser bonito, mas todo o resto não ajudava. Era preto, pobre, ignorante, morava longe. Sabia tratar as mulheres, mas não era disso que Luciana queria saber. Uma moça como ela nunca tinha posto nem um pé em um ônibus, muito menos na quebrada. Foi burrice.
            Iam se encontrar no cinema, ali perto. Ricardo morava perto do shopping desde a época em que ali em volta só havia mato e rua esburacada. Pegou um lotação pra não chegar suado.

            Luciana brincava com a aliança dele na cama enquanto ele saía do banho. Ele parou e olhou pro sorriso maroto na cara dela.
            - O que você tá fazendo? – ele perguntou.
            - Brincando. – ela respondeu.
            - Bota ela de volta com as minhas coisas. Se eu chegar em casa sem ela a mulher me mata. – ele respondeu, tirando a toalha e procurando pela cueca no chão.
            - Acho bom que ela fique sabendo. – disse Luciana. – Com o dinheiro que você tem, não precisa dela. Se ela quiser manter a vida de dondoca, que aceite calada.
            - Vocês mulheres são todas loucas. – disse ele, cuecas vestidas, agora pondo as meias sociais negras com cuidado, pra não rasgar.
            - Por quê?
            - Nem se conhecem e se odeiam.
            - Nós somos possessivas. Você está fodendo nós duas, temos um problema de território aí.
            - Não durmo com ela há um mês, juro. – mentiu ele.
            Ele se sentou na cama pra por as calças. Ela o abraçou pelas costas, deitando a cabeça no seu ombro. Ele pegou o relógio de ouro no criado e olhou os ponteiros.
            - Saco, ainda tenho que passar no escritório pra pegar uma papelada. – ele reclamou.
            - Você quer é ir lá comer a secretária, seu canalha. – debochou ela, dando-lhe uma mordida de leve na orelha. – Que horas são?
            - 18h30.
            - Merda! – ela se jogou pra fora da cama correndo, tentando fechar o sutiã de qualquer jeito.
            - Que foi? – ele perguntou, curioso.
            - Tenho um encontro com um crioulo lá da firma, nosso novo representante do RH. Uma gracinha. – ela disse, sem cerimônia. Se ela podia dividir ele, ele podia dividi-la também.
            - Um negro? – ele perguntou.
            - É, um negro. – ela respondeu, fazendo um gesto com as mãos, indicando um tamanho avantajado. – Estou curiosa.
            Ele fez uma careta, mistura de irritação com deboche.
            - Cadê minha aliança? – ele perguntou.
            - Tá no bolso do seu paletó.

            Ela estava atrasada.
            Olhou impaciente para o relógio descascado de novo. Devia ter ido buscá-la em casa, mas ficara com vergonha. O que ela pensaria se o visse em seu Gol bola? Já não bastava ele ser negro, todo mundo sabia sua história de vida na firma. Como venceu todas as adversidades, o primeiro da família com um diploma universitário. Isso não evitava que as pessoas olhassem pra ele como se fosse um faxineiro ou um boy qualquer. Era difícil. Ser negro era uma barreira que precisava de muito dinheiro para ser rompida e que, mesmo chefiando o RH, ele não tinha rompido.
            A gravata estava apertando o seu pescoço. Não devia ter se vestido assim também. Tinha que se mostrar mais tranqüilo, desinteressado. Uma roupa casual, talvez um esporte fino. Sempre ficava bem de camisa. Mas com aquele paletó, estava sufocado e exagerado. Merda. Devia tê-la buscado em casa. Podia ter levado uma flor pra ela. Sim, uma única flor. Como iam para o cinema e depois jantar, um buquê seria chamativo e exagero, tinha que ser algo para uma ocasião mais especial. Já uma flor era uma flor. Era um bom gesto, mas não era nada demais.
            Finalmente Luciana surgiu no topo da escada rolante, esbaforida, parecia que tinha vindo correndo.
            - Desculpe pelo atraso. – ela disse.
            - Como fez pra chegar aqui?
            - Meu chefe me trouxe.
            - Hum.
            - Ainda dá tempo de ver o filme?
            - Aquele não, já começou.
            - Quais são as nossas opções?
            - Tem um de mocinho e bandido e outro de romance. Qual você quer?
            - O de romance, claro.
            - Então o de romance será. Vou comprar nossos ingressos.
           
            Luciana ficou observando ele se afastar a passos calmos. Parecia tão nervoso quando a viu surgir na escada. Disfarçou, meio apatetado, mas a partir do momento que falou, parecia que o nervosismo passou. Enquanto ele encarava a pequena fila, ela se abanava, pra parar de suar. Também queria ver se não tinha dado bandeira. Se estava tudo no lugar, se o cabelo estava penteado e, principalmente, se não havia nenhuma marca nem cheiro que indicasse onde estivera durante a tarde.
            Ricardo voltou feliz e lhe deu seu braço para que entrassem na sala. Ela sorriu sem graça e aceitou. Pobrezinho. Aquele rapaz era tão bonzinho, tão educado.  Mas era pobre, preto, fodido. Sem cultura. Não era nada como o outro: rico, confiante, poliglota. Entendido de vinhos, carros e de como fazer dinheiro virar mais dinheiro. Só que aquele estava ficando velho. Quarenta anos já, ela só com vinte e dois.
            Ele já tinha gordurinhas ao redor da barriga protuberante. Às vezes era chato, tinha manias, preocupações, problemas. Sem contar a esposa. Era um coitado, afinal, sofrendo na mão da megera, com tanto dinheiro, mas infeliz, gastando com lolitas feito ela.
            Observou Ricardo ao seu lado enquanto procuravam seus lugares na sala. Ele não era assim. Podia não ter nada do que o outro tinha, mas era muito bonito, cavalheiro. Alto, do jeito que ela gostava, jovem, poucos anos mais velho do que ela. Tinha um sorriso bonito, uma voz forte. Se pegou pensando besteiras com ele antes mesmo do filme começar. Sentiu-se molhada.
            Sentaram-se, afinal, e ela deu sua mão para ele. Ele gostou da iniciativa. Durante o filme, planejava guiá-lo até debaixo da saia curta, caso ele não tomasse a iniciativa. Com a mão direita, instintivamente revistou os bolsos nas dobras da saia.
Estava usando um vestido bonito, de marca, na altura do joelho, alças finas. Era preto com branco, uma graça. Foi o outro quem dera. Checou os bolsos escondidos nas dobras para ver se estava tudo no lugar. Encontrou algo que não devia no bolso direito. Seu estômago gelou.

Susana chorava.
            Parava só para sentir o sangue ferver e a mágoa machucar forte no coração e então chorava mais. Soluçava, descontrolada. Os ombros chacoalhando. Enfiava a cara em um lenço já sujo e encharcado. Ela toda fedia à humilhação. A cara inchada, o cabelo bagunçado, a roupa feia de ficar em casa.
            Vou ficar até tarde na reunião.
Reunião porra nenhuma.
            Ele estava com a outra. A ninfetinha dele. Aquela menina devia ter o quê, 21? Talvez fosse até menor de idade. A assistente nova dele. Já tinha uma secretária, com cinqüenta anos e reumática, precisava de outra assistente pra quê? Pra foder, é claro. Assistente de boceta. Imagens dos dois em cima da mesa do escritório dele vinham à sua cabeça e as lágrimas rolavam pelo rosto.
Descobrira por acaso, mas já desconfiava. Ele ficou diferente. De repente passou a se arrumar melhor. A passar perfume, fazer direito a barba. Descobriu pelo jeito que os dois se olhavam na confraternização e como ele falava dela. Descobriu também pelo celular, com ela lhe mandando mensagens pornográficas, no maior descaramento. Ele respondendo que ela era louca, que a mulher podia ver.
Só de lembrar dessas coisas, o estômago de Susana dava cambalhotas tão violentas que ela quase perdia a força nas pernas. Não sabia o que tinha feito de errado. Ela não era velha, ela não era pobre, ela não era feia. Casara muito jovem com um partidão, amigo do seu irmão mais velho. Ela então tinha vinte e poucos anos, agora, tinha apenas trinta e três.
            Tinha ligado pra ele várias vezes naquela noite, e nada. Atendeu só uma vez pra cochichar que estava em reunião. Reunião o cacete. Olhou pela janela e viu o carro encostar na garagem, abriu a porta lívida, pronta pra fazer um escândalo.
            - Meu amor. – ele cumprimentou, cínico, envolvendo-a em seus braços.
            Fedia a xampu de motelzinho barato.
            - Você tava com ela, né? Aquela sirigaita! – acusou Susana.
- O que é isso, meu amor! – disse ele, levantando as mãos, defensivo.
Susana deu um sorriso cruel, tomando-lhe em um golpe a mão esquerda.
            - O que é isso, meu amor? – perguntou ela, mostrando a palma da mão esquerda dele aberta. A aliança faltando no dedo.

Puta que pariu, esqueci a aliança.
Com um puxão, Maurício livrou a mão esquerda e socou ambas nos bolsos externos do paletó.
            - Que bobagem a minha, tirei porque estava apertando, sabe como é, o calor, as mãos incham... – enrolou. Puta merda, a desculpa das mãos inchadas é a pior de todas. Revirou os bolsos externos, nada.
            Susana cruzou os braços, fuzilando-o com os olhos.
Ele enfiou as mãos nos bolsos internos, depois em todos os da calça. Nada. Deu um sorriso amarelo.
            - Que bobagem a minha. – repetiu. – Deve ter caído no carro.
- Sei. – rosnou Susana.
            Maurício deu dois passos vacilantes para trás e depois correu para o carro. Acendeu a luz. Checou porta-luvas, porta-trecos, embaixo dos bancos. Nada. Ergueu a cabeça com cara de bobo e de derrotado.
            - Que foi, o gato comeu sua língua? – desafiou Susana, os olhos voltando a se encher de lágrimas.
            - Que bobagem a minha.  – disse ainda uma terceira vez, com a certeza absoluta que estava fazendo papel de idiota. – Deve ter escorregado dos meus dedos enquanto eu lavava as mãos.
            - Tá me achando com cara de idiota, né?
            - Está no escritório. – disse por fim. – Eu vou buscar e chego com ela aqui, prometo. – entrou no carro e saiu, cantando pneus.


Luciana ignorou as vibrações do celular três vezes até dizer que precisava ir ao banheiro e sair. Atendeu um Maurício puto e desesperado. Disse que estava no meio do filme, não podia sair. Falou pra qual restaurante eles iam depois. Sugeriu que ele fosse no escritório tomar uma dose do uísque que ele mantinha na gaveta e fizesse uma hora, pra relaxar.
            Quando ela estivesse no restaurante, ela dava um toque e ele podia ir lá buscar. Mandou ele ficar tranqüilo. Desligou o celular tensa. Homens são tão imaturos, todos eles. Ela não estava realmente preocupada com a situação, tinha uma sensação besta de controle até ele ligar xingando-a tudo. Os idiotas perdem a cabeça por qualquer coisa.
            Voltou para a sala, sorriu para Ricardo e perguntou “o que foi que eu perdi?”, ele só sorriu em resposta, meio sem graça. Ela se sentou e sorriu sem jeito de volta, tentando disfarçar a tensão. Respirou profundamente. Enfiou a mão no bolso e revirou a aliança pesando meia tonelada em seus dedos.

Maurício destrancou a gaveta, encheu um copo de uísque e virou goela abaixo, cowboy, mesmo geralmente tomando com gelo e devagar, contando vantagem para os clientes. Sentou-se na cadeira, puto. Aquela putinha tinha pego a aliança dele de propósito, era pra foder com o seu casamento.
            A piranha queria causar intriga, chutar o balde, derrubar a casa. Ela devia estar rindo dele, contando os minutos pra dar pro tal negão pauzudo que ela conhecera. Não ia ficar assim, não mesmo. Na segunda-feira ela ganhava rua. RUA. Justa causa. Ia sumir com alguma coisa e enfiar na mesa dela. Chamá-la de ladra pra todo mundo ouvir. Acusar de cleptomaníaca.
Gastara uma fortuna com aquela putinha pra ela lhe aprontar uma dessas. Mulheres são todas iguais. Falam que não querem nada sério, que não querem envolvimento e quando é fé, dá nisso. Estava destruindo o casamento dele. Não era amor, ela queria o dinheiro dele igual a Susana antes dela. Duas interesseiras, marcando o território com a boceta. Só faltava mijarem nele feito cachorros num poste. Não ia ficar assim não. Ia dar um jeito nela e depois na mulher.
Abriu a gaveta pra guardar o uísque e observou longamente outro objeto que guardava lá. Recebeu uma mensagem de Luciana. Hesitou por um instante. Guardou o uísque. Botou o objeto no bolso interno do paletó e saiu.

Ricardo reparou que Luciana estava agindo de forma estranha desde que entraram no cinema. Parecia suar frio, tinha até ido ao banheiro. Será que estava se sentindo bem? Nem se tocaram durante o filme. Quando acabou, ele perguntou se ela estava bem.
            - Sim, é só estômago vazio. Vamos para o restaurante. – ela disse, forçando um sorriso.
Pegaram um táxi. Chegando lá, ela pediu licença mais uma vez. Mal tocou na comida, parecia ansiosa, nervosa por alguma coisa. Ele tentou puxar conversa, ela não deu muita bola, estava distante. Perguntou se ele não ia comer. Ele disse que estava indisposto. Na verdade, só tinha dinheiro pra pagar a janta dela, mas por causa da tensão, acabou pedindo um chopp de cerveja preta. Bebeu em grandes goles.
De repente o celular dela tocou, ela pediu licença novamente, mas ao invés de ir ao banheiro, foi para a porta do restaurante. Ricardo achou estranho e foi atrás. Ela foi até a esquina. Estava escuro. Um homem desceu de um carro e começou a bater boca com ela. Ela tirou algo do bolso e atirou contra ele, ele foi pra sarjeta, procurar.
De longe, Ricardo viu o brilho e o tilintar do objeto no chão confirmou suas suspeitas. Sentiu o estômago ficar frio e gritou:
            - Luciana?
Neste exato momento ela se virou. O homem não parecia tê-lo visto. Sacou um revólver mirrado do bolso interno do paletó e deu três tiros na cabeça dela. Ricardo não conseguiu conter um grito enquanto ela caía. O homem correu para dentro do carro e foi embora.
Num assomo de coragem, Ricardo enfiou-se em um táxi que estava no estacionamento.
            - Siga aquele carro. – ordenou, do mesmo jeito que tinha visto nos filmes.
- É pra já, chefe. – respondeu o taxista. Sempre quisera fazer aquilo.

Susana observou Maurício enfiar o carro de qualquer jeito na garagem e descer armado. Gritou e correu para o fundo da sala enquanto ele escancarava a porta.
            - Toma aqui essa merda! – ele gritou, jogando a aliança recuperada na sarjeta na direção dela. – Isso aqui não vale nada!
Encolhida no canto e tomada por lágrimas, Susana sentiu o medo reverberar pelo seu corpo enquanto seu marido se aproximava lentamente, cobrindo-a de palavrões e ofensas, chamando-a de dondoca, de interesseira. Sentiu sua bexiga aliviar. Um naco de vergonha cobriu suas bochechas.
            E agora meu Deus? Ela não tinha pra onde correr, ela não tinha como se defender. Ela precisava de um milagre, ela precisava de um herói.

Ricardo irrompeu pela sala gritando como um gaulês enfurecido. A adrenalina e o medo em seu corpo deram-lhe temeridade e força. Surpreso, Maurício mal teve tempo de se virar. Ricardo jogou-se contra ele feito um touro. Era jovem, mais alto, mais forte. Maurício era um coroa assustado com uma arma.
Na briga, Ricardo levou a melhor e tomou-lhe a arma. Maurício arregalou os olhos. Ricardo, numa careta de fúria, deu dois golpes de coronhada na cara do ricaço. O primeiro atordoou, o segundo fez um estrago. Maurício caiu inerte com os olhos entreabertos, cuspindo alguns dentes, engasgando com o sangue.

Antes de apagar, Maurício ainda teve tempo de olhar nos olhos do negão. Droga, ele só queria assustar Susana. Mostrar pra ela quem é que mandava naquele casamento. O sujeito era grande. E bonito, do jeito que Luciana dissera. Luciana. Que merda ele tinha feito. Esfregou a língua com gosto de sangue nos locais em que lhe faltavam os dentes. Fechou os olhos e deixou o torpor vir. Ainda sentiu o negro botar os dedos no seu pescoço, para ver se ele ainda estava vivo. Claro que estava vivo, seu puto. Esse cara era um ignorante, do jeito que Luciana dissera.

A mulher se aproximou devagar, como um animal assustado. As lágrimas tinham secado em seu rosto. Ricardo tinha a boca seca e arfava, se sentia poderoso, feito um animal. Largou euforia e revólver de lado e se aproximou dela.
            - Você está bem?
            Ela assentiu e ele puxou-a para os seus braços. Mesmo desarrumada e marcada pelo descuido e desespero, ela era muito bonita.
            - Vai ficar tudo bem agora. – ele disse. – Você está segura.
Susana se deixou ficar nos braços fortes de Ricardo, até sua respiração acalmar. Podiam ouvir as sirenes da polícia chegando. Ricardo reparou que ela tinha olhos bonitos.
            - Você tem olhos bonitos, senhora. – disse ele, e tentou dar um sorriso falho de conforto.
            - Pode me chamar de Susana. – ela disse, erguendo a cabeça para ele. Ele era seu herói, seu salvador, um homem como Maurício jamais seria. Ela era uma esposa fiel e amável, sofrida pelo marido canalha, merecia um homem de verdade.
            - Meu nome é Ricardo. – disse ele, olhando-a nos olhos.
Se beijaram.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ano Novo

             O vinho amargo tem gosto de coração partido.

            Resolvi trocar pro champagne e suas borbulhações. Tem gosto de espuma. De sabão. Vou ficar nele mesmo. Não vou virar o ano tomando suco ou refrigerante. Se brincar, o espumante faz menos mal do que eles, duas porcarias industrializadas. Daqui uns dias, vamos medir nossa longevidade baseados na ingestão de sódio.
            Vou beber também que, pra agüentar o réveillon, não posso estar sóbrio. Pra compensar, resolvi aceitar o convite para a festa de um amigo ao invés de passar com a família. Não agüento a minha família. Meu amigo é podre de rico. Me chamou pra passar no terraço de um palacete do  governador. Não levei esse papo de palacete a sério até ver o lugar. Parece a porra de um castelo. A porcaria fede a burguesia. Eu fedo a burguesia, mas prefiro não ter essas coisas esfregadas na minha cara, o que é meio difícil quando você está tomando champagne em um palacete.
            Os garçons e outros funcionários do buffet estão pra todo lado, como formigas, mas na verdade parecem sombras, se movimentando com reflexos de lince entre mesas e centenas de convidados em pé, perdidos em suas conversas vazias intermináveis. Contornam os convidados de todas as formas, só faltam passar por baixo.
            Tem um barbudo perto de mim. Uns três metros de distância. Pé rapado feito eu, tá aqui de turista, caiu de paraquedas. Quem o chamou, deve estar arrependido. Enquanto bebo meu amargor, ele esculhamba e se esbalda. Faz gracinhas pras convidadas loiras e siliconadas. Primeiro elas olham pra ele com aqueles sorrisinhos de plástico. Depois ficam verdadeiramente incomodadas, fecham a cara e se afastam. Ele tá falando umas coisas bem pesadas, esse cara, vai acabar sendo posto pra fora.
Os únicos que ele trata bem, são os funcionários do buffet. Chama todos eles de “Alfred”. Incluindo as garçonetes. “Alfred, mais champagne!”, “sim, senhor”.  Estou torcendo há meia hora pra algum deles responder “sim, mestre Wayne", mas até agora nada.
- Gostou do champagne? – gritei pra ele.
- É uma merda. – disse ele, tomando um gole. – Deve ser só um espumante qualquer, o champagne mesmo deve estar sendo guardado pros grã-finos de verdade.
- Tá bebendo por quê, então? – eu perguntei, esperando uma resposta igual à minha.
- Porque tem gosto de dinheiro. – ele sorriu.
Já passa das onze. Muitos desses ricos babacas quiseram manter uma tradição de só comer depois da meia-noite e a comida toda está só beliscada. Alguns nem beliscaram. Bebendo de estômago vazio, muitos deles já começaram a dar vexame. Dou quinze minutos pro povo cair na piscina. Isso aqui vai deixar as festas do grande Gatsby no chinelo.
Os playboys maiores, macacos engaiolados que preferiram vir de camisa e jeans do que de terno estão ficando agitados. Um pega no colarinho do outro, rola um empurra empurra, mas nunca sai disso.  Os seguranças dessa festa devem ser leões-de-chácara. Aqui por perto tem dois: um alagoano quadradão e um negão careca. Se esses playboys resolverem brigar e esses dois entrarem no meio, vai ser a maior surra na vida desses riquinhos babacas.
- Alfred, mais champagne!
Dessa vez sou eu. O barbudo me dá um sorriso. Uma garçonete traz. Eu agradeço e uso seu nome que li no crachá. Ela fica meio sem graça e dá um sorriso tímido antes de se afastar.
A verdade é que não consigo ficar feliz no Ano Novo. Não há razões para ficar feliz e acreditar em dias melhores. Praquelas pessoas ali, talvez, mas o resto do mundo está fodido. Penso nos riquinhos metidos a babacas de esquerda que provavelmente foram convidados, mas estão falando mal dessa festa em outro lugar. Sobre como aqueles ricos ali são sujos. Como a burguesia fede. Eles são uns merdas. Farinha do mesmo saco.
Enquanto eu me deixei afogar no cinismo, os idiotas tentam preencher o vazio da realidade e da impotência com idealismo cego. Outros, talvez até presentes nesta festa, falariam frases vazias sobre ajudar ao próximo, ter fé em Deus, que temos que agradecer por sermos abastados e pensarmos nos pobrezinhos da África.
Putos, por favor. Toda vez que rico quer falar de miséria eles falam da África. Esses merdas não fazem a mínima ideia do quão fora da realidade eles vivem. Se quiserem ver miséria, eu vou ali na esquina e pego um sujeito com fome e sem dentes ou um dos tantos usuários de crack que se transformaram em animais. É outro tipo de cegueira isolar a miséria lá na África, do outro lado do Atlântico. Fácil pra caralho fazer isso. De certa forma, não os culpo. Se eu tivesse uma bolha tão confortável assim pra viver, não saía dela nem fodendo.
- Oi. – ela chegou de mansinho, feito gata, ronronando. Bonita, magrela, vestido vermelho. Cabelos e olhos castanhos. Sorriu. Tinha champagne na mão. A minha noite não podia ficar pior, tinha que ter uma garota.
Ignorei a coitada. Não estava com saco nem com cabeça. Conhecia esse tipinho. Fácil. Charmosa. Já tive minha cota na mão dessas. Não queria nem saber.
- Gostei da barba. – ela disse, vindo com a mão minúscula e delicada em direção ao meu rosto. A apanhei no ar. Ela achou o meu desleixo bonito. Três dias sem fazer a barba. Uma semana sem dormir direito. Ela não está desesperada nem está interessada. Estava entediada com essa festa e esses ricos panacas. Ela estava se divertindo.
Afastei-a delicadamente, ainda sem dizer palavra. O barbudo começou a observar curioso, acho que torcendo pra que ela fosse se esfregar nele. Ela voltou e eu a empurrei, ríspido. O empurrão não adiantou nada e ela veio mais forte, já se enfiando no meu peito, relando.
- Olha, eu não estou interessado. – respondi, com o máximo de cortesia que consegui, ao mesmo tempo em que era firme.
- Só estou aproveitando o terraço. Os fogos vão aparecer naquela direção. – disse ela apontando para a noite, sem me dar atenção, mesmo repousada no meu peito.
Eu estava cagando para o fogos.
- Não estou interessado. Já disse. – insisti.
        - Você acha que eu sou o quê? - ela se afastou meio braço e se virou pra mim, me olhando nos olhos, a mão no meu ombro. O corte dela era chanel.
            - Puta. – respondi sem rodeios, quem sabe ela se tocava.
            - Não, não sou. Hoje é uma festa de família, o governador não deixa elas entrar.
          - Não importa. É puta de espírito, então. – já disse, estava cansado desse tipo de mulher. Estava acima das piriguetes loiras que o barbudo importunava. Esse tipo era inteligente, mas não deixava de ser superficial e cilada.
            Ela só sorriu. A insistência dela estava me incomodando. Ela ficou nas pontas dos pés para falar ao meu ouvido.
            - Gosto que me chama de puta. Já viu quantos quartos e salas tem esse palacete? A gente podia...
            - Não. – a interrompi e a afastei, segurando firme pelos braços. A insistência dela estava me irritando.
            Ela se desvencilhou e manteve a distância que eu impus, mas não foi embora. Tomou mais um gole de champagne e ficou me observando.
            - O governador que te chamou?
            - Um colega em comum. Ajudei a resolver o assassinato da filha dele.
            - Hm, então você é policial? – ela fez que ia se aproximar, mas meu olhar feio a segurou no lugar.
            - Delegado de Homicídios. – respondi, meio a contragosto.
            Ela ficou curiosa, fez algumas perguntas. Ignorei. A piranha fez eu pensar em coisas que eu não queria. Lembrei de todos os fodidos no xadrez na delegacia. No fedor abafado do xadrez. Deu vontade de mostrar aqueles coitados pra ela. Pra ela e pra todos aqueles putos bem vestidos. Vocês estão bebendo champagne enquanto esses caras fazem turnos pra ver quem dorme e quem usa a privada. Não vou alisar. Bandido é bandido, tem que pagar pelos crimes que cometeu. Mas ficar numa cela escura junto com a própria merda é uma coisa medieval.
            Penso no cidadão comum e de bem, que chacoalha todo dia no busão. Agora tava em casa, tinha gastado o que não podia numa ceia mirrada que a televisão mandou ele comprar vendo a Ivete Sangalo pulando numa perna só na televisão. Mas estava feliz, tadinho, junto com a família. Um calor no coração pra compensar o resto que faltava.
            Pensei nos moradores de rua passando frio e tomando chuva num dia supostamente de confraternização e esperança. E finalmente nos trabalhadores daquela noite. Desde porteiros e guardas até os funcionários do buffet. Alguns iam cochilar vendo o show da virada e tomando café forte ou coca-cola em suas guaritas apertadas. Outros tantos iam fazer brindes discretos e infelizes na cozinha, como o pessoal do buffet. Um garçom ia levar uma taça de espumante e um sincero voto de ano novo para os seguranças nas portas das festas e das boates. Eles iam agradecer, beber a taça de um gole e olhar pro céu, para os fogos, para as estrelas, procurando alguma coisa que eles desconhecem e que não está lá.
            Volto pra realidade e a menina está me olhando, com aquele sorrisinho no rosto. Essa menina não sabe de nada. O barbudo parou de olhar pra gente. Uma tia meio ébria e meio gorda num vestido azul começou a dar moral pra ele. Ele se deu por satisfeito.
            Finalmente o reconheci. Era um jornalista fodido que tinha coberto a campanha do governador. Segundo a ética, ele não poderia aceitar aquele convite. Mas como ele provavelmente ia passar a virada em casa tomando sopa rala, trocou a dignidade por taças de champagne.
            - Tá bom. – eu disse pra ela, finalmente. – Vamos para um quarto.
            Ela sorriu assanhada e me puxou pela mão. Fomos pra biblioteca, no andar debaixo. Perguntei pra ela se ela podia ser mais clichê, ela disse que gostava do clichê, que a excitava. Ela saiu do vestido com uma facilidade que eu não julgava possível. A lingerie também era vermelha. Tirei o paletó, a camisa e a gravata. Ela arrancou meu cinto. Nem tirei o resto.
            Fodi a menina com toda a vontade e o ódio do mundo nos quadris, em um sofazinho estilo colonial/antiquário, mas era uma cópia. As pernas altas de madeira rangeram agourentamente mais de uma vez e achei que íamos acabar no chão. Ela gemeu e gritou feito uma cabrita do jeito que essas mulheres escandalosas e teatrais como ela sempre fazem.
            Quando acabou, eu fechei a calça e me levantei. Ela ficou um pouco sem ar no sofá por uns segundos me observando e depois vestiu a calcinha. Não tinha tirado nem os saltos nem a meia calça, parecia uma atriz pornô. Pela cara dela, dava pra ver que a piranha sempre quis foder um estranho na biblioteca de um dos tantos ricos que ela conhecia.
            Escutei um estouro vindo de fora. Ela se levantou, animada, com os peitos pequenos, firmes e redondos balançando e dançou até a janela alta e enorme, abrindo-a. Tinha começado. Fogos multi-coloridos explodiam à distância e outros por toda à volta, parecendo que estávamos sendo bombardeados. Ela me puxou para a janela para ver junto com ela. Os olhos dela brilhavam.
            - Não são lindos? – os olhos dela no céu.
            Pensei em nós dois ali. Eu com meu peito peludo e musculoso de fora, ela praticamente nua enrolada debaixo do meu braço. Olhei os seus peitinhos por um minuto e depois observei a queda até lá embaixo. Se usasse muita força, ela ia cair na grama e podia sobreviver. Se usasse menos, ela caía no assoalho lá embaixo e arrebentava a cabeça. Segurei-a pelos braços e me preparei.
            Ela me olhou com cara de divertida, achando que eu fazia alguma brincadeira.
            - O que você está fazendo?
            Parei e pensei por um segundo, a larguei e bufei, meio bravo. Não valia a pena.
            - Nada.
            Começou a chover pesada e bruscamente, encharcando nossos corpos seminus e boa parte da sala. Alguns fogos teimosos ainda subiam ao céu, praticamente silenciados pela chuva. Ela se virou pra mim e enxugou inutilmente a cara com as mãos. Afastou os cabelos que lhe pregavam sobre o rosto. Se esticou na ponta dos pés de novo e me beijou de leve nos lábios.
            - Feliz ano novo.
            Ela desceu e ficou a me observar, sorrindo. Olhei pra chuva castigando a cidade lá longe e senti o frio da água nos meus ombros. Sentia o gosto azedo de boceta na boca. Respondi:
            - É, talvez.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Vá dormir

Às vezes é difícil dormir. Fica um fuzuê na cabeça, um trem que só vendo. Podia ser mulher. Antes fosse mulher. Na verdade é problema. Problemas. Muitos deles. Tanto reais quanto imaginários.
            Todas essas imagens ficam vindo à minha cabeça. Vívidas, sentidas, magoadas. Por que você não pensa mais em mim, reclamam. Rostos, passagens, diálogos.
            Os problemas são fantasmas. Muitos fantasmas a me povoar o sótão, me assombrando em horas e locais inconvenientes. Dia desses dei de cara com um na rua. Outro na locadora. Acenei um bacana tímido pra ele. Fez que não viu. Até os fantasmas andam magoados.
            Você tem que tirar todos esses pensamentos da cabeça, disse o terapeuta, toda essa preocupação infundada vai te deixar broxa. Dou um sorriso amarelo. O que você está sentindo? Ele pergunta. Às vezes tudo, às vezes nada.
            Você tem que focar nas coisas boas, ele diz, mas as melhores memórias são cárceres. Tesouros, sim, congelados no tempo, mas confortos efêmeros que rapidamente se transformam em amargo saudosismo.
            Até pensei em me embebedar, mas o vinho tinha gosto forte de piedade. Não é isso que eu sinto ou quero. Não há nada exatamente errado, veja bem, nada exatamente fora do lugar. São só devaneios insones e uma triste saudade de tantos rostos que perdi, das risadas e companhias que não vou mais compartilhar.
            As pessoas, sabe, elas se perdem no tempo, saindo da sua vida com a mesma facilidade com que entram. É algo natural, mas acho tão estranho. É ruim lembrar de companheiros do passado e agora se encontrarem na rua como completos estranhos.
            E as meninas, ah, as meninas. Lembro-me vividamente dos cabelos roxos de uma, da neurose de outra, do fogo abusado de umas e da baixeza de algumas. São os fantasmas favoritos, às vezes os mais cruéis, às vezes os mais piedosos, se fazendo companheiros ou te largando no escuro.
            Não tá fácil pra ninguém. Dizem que a partir de certa idade não existe felicidade. Eu discordo. Acho que nunca se sabe. Outro dia no restaurante um russo jogou o garçom na mesa, botou o sapato na cara dele, puxou um revólver feio e acinzentado, velho, parecendo coisa de faroeste. “Eu não gostar, eu não pagar!”, gritou o russo, puto. Apontava a arma do garçom pras pessoas, careca, trêmulo.
            Deu um pipoco pra cima. Todo mundo se jogou no chão, encagaçados. O sujeito sumiu e ficou por isso mesmo. Enfim, foi o stress, a gota d’água? Não tá fácil. Se tá assim pro russo, imagina pro desdentado que pede moedas em troca de bacanas.
            Mas vai ver, o que falta é compartilhar. Alegrias, tristezas, fantasmas e até bacanas.
            Por isso, acho que bom mesmo é sempre ter um amigo, alguém com que se pode contar. Amigos, no plural, se possível. Que sempre vão te ajudar, até em casos sobrenaturais:
            - Fulano, - você diz ao telefone às tantas horas da matina. – acho que vi um fantasma.
            Ao que o amigo presente prontamente responde:
            - Vá dormir, porra.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Séries para assistir nas férias #2

Olá, meus floquinhos de neve caramelados, como vão vocês? Assim como ano passado eu indiquei seriados para se ver nas férias, hoje eu faço o mesmo! Foi um ano muito promissor, com muitas novas séries boas e em que muitas das boas séries antigas perderam a mão. Pois é, algumas das séries da postagem passada como Gossip Girl, House e Supernatural tão de hora extra e precisando urgentemente acabar.
            Caso você queira reclamar dos contos, eu tenho dois engatilhados, mas nessa época do ano o meu movimento baixo de leitores fica ainda mais baixo e menos movimentado. E também, quase todo mundo que eu conheço está postando coisas densas, pesadas e deprimidas no final do ano. Resolvi postar algo mais leve.
            Para suprir a decepção com essas séries, muitas das novas impressionaram. Algumas antigas melhoraram ainda mais, sem contar algumas antigas que não mencionei na outra postagem e agora entraram para essa nova lista de recomendações. Vamos à elas.


GAME OF THRONES
            O gênero de fantasia está consideravelmente defasado, crianças. Se você for na sessão infanto-juvenil de qualquer livraria, há trezentos milhões de livros com elfos, terras distantes, magia e dragões e o que a vasta maioria deles tem em comum é que eles são uma merda. Isso aqui no Brasil, no exterior, a quantidade de títulos do estilo é ainda maior, com bombas bombásticas e chocolatantes do naipe de Eragon e Dragões do Éter.
            Então não, eu não botava fé nenhuma nessa série, baseada em As Crônicas de Gelo e Fogo ( A Song of Ice and Fire no original) do escritor gordo e nerd americano George R.R. Martin, mais um feito a JK Rowling que deu um jeito de homenagear os mestres J.R.R. Tolkien e CS Lewis em seus nomes de escritor.
            Esse trauma com fantasia começou com o fato de eu nunca ter conseguido escrever fantasia decentemente – embora um dia eu chego lá – e também por causa da quantidade atroz de coisas ruins de fantasia que existem. Isso começou quando eu li Dragões do Crepúsculo de Outono e parada só ficava boa nas 20 primeiras páginas e nas 50 páginas finais. E só. Como sempre tinha uma mitologia própria muito foda e tudo mais, mas era muito chato.
            E eu comecei a ficar de saco cheio dos clichês semi-obrigatórios de fantasia, como os que se encontra nos jogos, com as poções de mana, os elfos babacas, os portais de uma cidade pra outra e sempre, SEMPRE, uma crise de criaturas DUMAL que vai devorar e foder o planeta. Sérião, Um Anel para  todos governar já foi o suficiente, não quero ver mais essa história.
            Mesmo assim, resolvi ver de qual que era, nem que fosse pra falar mal. Eu li a série Crepúsculo pra poder comprovar se era tão ruim como falavam, tinha que conferir essa série. E foi com grande surpresa e satisfação que ela CHOCOU MINHA MENTE.  A série é tão boa que me levou a ler os livros – que são maravilhosos. Acontece que Game of Thrones é uma evolução e também uma perversão do realismo-fantástico do gênero, no estilo O Senhor dos Anéis em que os elementos de fantasia não são tão grandes.
            Além disso, a série é adulta e envolve traição e guerra por causa de um trono – ah, sério? – e aqui está uma narrativa cheia de sexo, violência, traição e muitas conspirações e reviravoltas inesperadas. É o melhor do melhor da fantasia contemporânea e você poderá até se pegar achando-a melhor do que O Senhor dos Anéis.
            Pois é. Enquanto O Hobbit não chega, que tal explorar Westeros e todos seus personagens fantásticos?


FALLING SKIES
            Outro gênero fodido é ficção-científica. Nunca acompanhei nenhuma série desse estilo simplesmente porque eram chatas demais. Battlestar Galactica, Stargate, Firefly, Babylon 5, Star Trek. Todas um TÉDIO. Chatésimas. Falling Skies  é sobre invasão da Terra e, não sei por que, resolvi dar uma chance também.
            E curti. Não é uma série perfeita e maravilhosa, mas é muito legalzona. Ela usa as limitações de orçamento e efeitos especiais em prol do roteiro e isso deu certo. Outra coisa legal é o protagonista, que é um professor de História e não um marine super bombado, bonitão e tatuado.
            E é muito mais sobre sobrevivência e mesmo assim ficou bacana. A maior parte dos outros personagens são estereotipados, mas são bacanas, mesmo assim. Vale a pena porque é uma série que misturou sobrevivência estilo Lost com alienígenas e não inventou mil mistérios, nem grandes heróis, nem flashbacks. Ela se manteve no simples e no legal e o resultado é uma série muito legalzona que, exatamente por não ter pretensões demais, acaba superando as expectativas.



AMERICAN HORROR STORY
            Uma das melhores novas séries do ano. Assisti a temporada inteira em três dias. Em uma palavra: FODA. Ela junta tudo que tem de legal em filmes de terror: tem monstro, tem fantasma, tem serial killer, tem sadômasô, tem anticristo e tem uma governanta gostosa que também é uma velha caolha. E tem a Taissa Vergara jailbait com seus 17 aninhos fazendo uma menina depressiva massa.
            A série não se prende ao gore e tem um enredo muito bom e sempre mantém o suspense lá em cima, o que me deixa muito feliz, porque a maior parte dos filmes de terror esqueceram disso. Sério, Jogos Mortais e Atividade Paranormal são uma merda, um só tem violência e coisas nojentas e o outro fica batendo porta sem um enredo decente.
            O mais surpreendente é que ela é dos criadores de Glee. Pois é. Como os caras que criaram aquele seriado macarrônico e purpurinado conseguiram criar uma série de terror tão foda jamais compreenderei. O único porém é que a história da primeira temporada se fecha, podendo dar um perfeito ponto final logo ali, da mesma forma que Heroes poderia ter feito. Mas Heroes continuou e virou um lixo inacreditável. Tenho muito medo quanto ao futuro dessa série, os roteiristas vão ter que se esforçar muito pra não deixar a peteca da qualidade cair.


FRIENDS
            Clássica, né moçada?
            A sitcom nunca mais foi a mesma e até hoje temos que engolir toneladas e mais toneladas de cópias descaradas – e ruins – dessa série; pra resumir, ela simplesmente é muito boa. Muito boa. É daquelas que você pode ver e rever quinhentas vezes e as piadas ainda tem graça. Uma coisa interessante é ver o quanto o longínquo ano de 1994 parece distante, zoado e brega vendo as primeiras temporadas nos dias de hoje.
            O segredo é que todos nós queremos que nossos amigos sejam como os do seriado. E todos nós nos identificamos fodido com um dos personagens. No meu caso, me acho o Chandler Bing. É uma série que não tem erro porque ela até é o prazer culpado de alguns babaquinhas anti-enlatados americanos que eu conheço. E são DEZ temporadas, dependendo do seu nível de tédio nessas férias, dá pra você assistir a coisa toda.


HOW I MET YOUR MOTHER
            De todas as cópias de Friends já feitas, essa é de longe a melhor. É uma cópia descarada, mas é ótima. E existem novas estratégias de narrativa muito inteligentes e legais. Por exemplo, os episódios são cheios de flashbacks, narrativa desconstruída, narrativa episódica e etc etc etc. E o mais legal é que eu nunca imaginei nada disso numa série de comédia e DEU CERTO!
            Os personagens não são excelentes, mas o que costuma prender é ora o roteiro ora os atores. Alyson Hannigan e o Neil Pratrick Harris são os principais responsáveis por isso. A série também tem um lado bonitinho, porque o protagonista, Ted Mosby, está em busca do amor de sua vida. Eu acho isso legal, ainda mais hoje em dia em que ter sentimentos e buscar alguém maneiro pra você é considerado veladamente como bobo pela vasta maioria das pessoas, incluindo as meninas.
            Pessoalmente, porém, eu acho Ted meio chato e seu ator meio ruim, mas isso não chega a atrapalhar o todo. Já está na sétima temporada, porém, e até agora nada dele conhecer a mãe de seus filhos, então, se você quer assistir: coragem.



2 BROKE GIRLS
            Outra boa novidade desse ano. Enquanto a maior parte das sitcoms envolve gente de classe média morando em Manhattan, essa série acompanha duas garçonetes fodidas do Brooklyn. A desgraça delas vira piada, mas ao mesmo tempo é muito interessante ver temas como sucateamento da saúde pública, falta e saneamento e moradia, racismo e outros temas da quebrada aparecendo no horário nobre e sendo abordados com bom humor.
            O que fez ver a série foi a Kat Dennings, sempre fui fã da atriz, e quis saber do que se tratava e gostei muito da série. Ela faz a garçonete Max Black, super traumatizada emocionalmente e fechada por causa de uma vida dura que nunca de uma folga e sua improvável amizade e parceria com a garçonete Caroline Channing, uma socialite riquíssima que de repente se vê pobre pobre de marré marré marre quando seu pai é preso por fraude bancária.
            Embora essa abordagem de rico/pobre não seja nova, a série não entra em nenhum dos clichês. A apatia quanto à pobreza de Caroline talvez seja um pouco forçada, mas é melhor do que ver as cenas batidas de patricinha chorando e dando esquetes. Ver ela usar sarcasmo e bater de frente com as coisas pode não ser realista, mas é novidade.
            E tem as piadas com hipsters, que é a cereja no bolo.
            Sério, são maravilhosas e criticam toda essa turma moderninha querendo ser chiques ou alternativos na pobreza sem abrir mão de seu cartão de crédito. O que é legal, porque às vezes parece que só eu não gosto de hipsters. Enfim, assista, é bom, é engraçado, tem a Kat e tem a Beth Behrs.



THE BIG BANG THEORY
            Essa série é polêmica.
            Por que, você me pergunta e eu te respondo: porque ela reforça estereótipos, às vezes é ofensiva e por aí vai. Não só pela forma com que retrata os nerds, mas também a “loira burra” interpretada pela Kaley Cuoco. Mas isso depende muito do quanto os roteiristas estão dispostos. Eu já vi episódios e piadas que foram assim, ruins e estereotipadas, mas a maior parte do tempo, não é.
            A maior parte do tempo é realmente engraçado, cheio de ótimas referências ao mundo nerd e à cultura pop e muitas vezes real, mostrando os rapazes e seus relacionamentos assim também como a Penny tentando superar o julgamento superficial que sofre e trabalhando duro pra ter uma vida melhor.
            O problema é que muita gente que assiste a série leva tudo aquilo à sério, o que gera muito daquele “preconceito nerd” que é um saco ou senão gera aquela outra coisa: todo mundo assiste, vê uma coisa em comum e já acha que é nerd. Um exemplo: aquele conhecido playboy seu que de repente te fala “pô cara, sou super nerd, adoro video game” e daí você fala “ah é? O que você joga?” já sabendo a resposta e ele fala: “FIFA, Need for Speed e Call of Duty Modern Warfare”.
            Não cara, você não é nerd. Nunca serão.
            Enfim, o fallout da série é problemático, mas ela mesma é muito boa e divertida. Vale a pena conferir, só não banque o idiota depois, por favor.



THE WALKING DEAD
            Inspirada nas histórias em quadrinhos de mesmo nome – publicada no Brasil como Os Mortos-Vivos – ela começa meio parada mas rapidamente evolui pra ser uma das melhores séries dramáticas disponíveis. Veja bem, ela não é uma série sobre zumbis, mas sim sobre os personagens e seus dramas.
            Tem gore e umas mutilações, mas é mais por diversão. A maior parte dos episódios, você nem sequer vai ver um zumbi. O drama, os conflitos, a sobrevivência, esse é o foco aqui e é isso que faz a série ser interessante. Se fosse simplesmente sobre matar zumbis, não seria nem metade do que é.
            A prova cabal disso tudo que lhes disse veio dos próprios quadrinhos quando o protagonista Rick Grimes diz “Nós somos os mortos-vivos”. Porque todo aquele apocalipse, todos aqueles zumbis, eles não se importam. O horror, as vidas vazias, os valores e morais destruídos, isso é um peso para os vivos que se tornaram nada mais do que mortos que andam.
            Foda né?


 MAD MEN

            Essa série já está rolando há quatro anos, mas só assisti agora. Pois é. A maior concorrente em séries adultas da HBO é a ABC, e esse era o seu carro chefe antes de The Walking Dead. A diferença é que a ABC é comportada, então aqui não tem peito pulando e coisa e tal.
Mas estou divagando. Mad Men é sobre os publicitários da Madison Avenue em Manhattan na década de sessenta. A série é de drama e é ótima, com um protagonista com um passado obscura, sua mulher troféu bonequinha com desejos e vontades escusas e etc etc etc. Uma das melhores coisas, na minha opinião, é a forma como os anos sessenta são retratados sem alívios, com toneladas de racismo, machismo, cigarro e opressão.
Vale muito a pena ver se perguntar se as coisas realmente mudaram nos últimos quarenta anos.

Pois bem criançada, por hoje é só. Depois me digam se gostaram das recomendações, depois do ano novo voltamos à nossa programação normal.