Ricardo olhou nervoso pro relógio de pulso.
Era velho e descascado, mas ele não o trocava nunca. Tinha aquele relógio há 12 anos, nunca parara de tiquetaquear, não ia trocar por outro só porque ele tinha envelhecido, ficado feio. Estava nervoso. A perna direita chacoalhava inquieta havia uns bons quinze minutos, sem parar. Sentia um pouquinho de queimação no estômago, não sabia se era nervosismo ou a comida mesmo.
Tinha comido uma porção inteira de bolinhos de bacalhau e tomado uma cerveja preta, pra dar coragem. Tinha chamado a Luciana pra sair. Ia levá-la num desses restaurantes chiques, dos que ela tava acostumada. Fora burrice chamar a Luciana pra sair. Ele podia até ser bonito, mas todo o resto não ajudava. Era preto, pobre, ignorante, morava longe. Sabia tratar as mulheres, mas não era disso que Luciana queria saber. Uma moça como ela nunca tinha posto nem um pé em um ônibus, muito menos na quebrada. Foi burrice.
Iam se encontrar no cinema, ali perto. Ricardo morava perto do shopping desde a época em que ali em volta só havia mato e rua esburacada. Pegou um lotação pra não chegar suado.
Luciana brincava com a aliança dele na cama enquanto ele saía do banho. Ele parou e olhou pro sorriso maroto na cara dela.
- O que você tá fazendo? – ele perguntou.
- Brincando. – ela respondeu.
- Bota ela de volta com as minhas coisas. Se eu chegar em casa sem ela a mulher me mata. – ele respondeu, tirando a toalha e procurando pela cueca no chão.
- Acho bom que ela fique sabendo. – disse Luciana. – Com o dinheiro que você tem, não precisa dela. Se ela quiser manter a vida de dondoca, que aceite calada.
- Vocês mulheres são todas loucas. – disse ele, cuecas vestidas, agora pondo as meias sociais negras com cuidado, pra não rasgar.
- Por quê?
- Nem se conhecem e se odeiam.
- Nós somos possessivas. Você está fodendo nós duas, temos um problema de território aí.
- Não durmo com ela há um mês, juro. – mentiu ele.
Ele se sentou na cama pra por as calças. Ela o abraçou pelas costas, deitando a cabeça no seu ombro. Ele pegou o relógio de ouro no criado e olhou os ponteiros.
- Saco, ainda tenho que passar no escritório pra pegar uma papelada. – ele reclamou.
- Você quer é ir lá comer a secretária, seu canalha. – debochou ela, dando-lhe uma mordida de leve na orelha. – Que horas são?
- 18h30.
- Merda! – ela se jogou pra fora da cama correndo, tentando fechar o sutiã de qualquer jeito.
- Que foi? – ele perguntou, curioso.
- Tenho um encontro com um crioulo lá da firma, nosso novo representante do RH. Uma gracinha. – ela disse, sem cerimônia. Se ela podia dividir ele, ele podia dividi-la também.
- Um negro? – ele perguntou.
- É, um negro. – ela respondeu, fazendo um gesto com as mãos, indicando um tamanho avantajado. – Estou curiosa.
Ele fez uma careta, mistura de irritação com deboche.
- Cadê minha aliança? – ele perguntou.
- Tá no bolso do seu paletó.
Ela estava atrasada.
Olhou impaciente para o relógio descascado de novo. Devia ter ido buscá-la em casa, mas ficara com vergonha. O que ela pensaria se o visse em seu Gol bola? Já não bastava ele ser negro, todo mundo sabia sua história de vida na firma. Como venceu todas as adversidades, o primeiro da família com um diploma universitário. Isso não evitava que as pessoas olhassem pra ele como se fosse um faxineiro ou um boy qualquer. Era difícil. Ser negro era uma barreira que precisava de muito dinheiro para ser rompida e que, mesmo chefiando o RH, ele não tinha rompido.
A gravata estava apertando o seu pescoço. Não devia ter se vestido assim também. Tinha que se mostrar mais tranqüilo, desinteressado. Uma roupa casual, talvez um esporte fino. Sempre ficava bem de camisa. Mas com aquele paletó, estava sufocado e exagerado. Merda. Devia tê-la buscado em casa. Podia ter levado uma flor pra ela. Sim, uma única flor. Como iam para o cinema e depois jantar, um buquê seria chamativo e exagero, tinha que ser algo para uma ocasião mais especial. Já uma flor era uma flor. Era um bom gesto, mas não era nada demais.
Finalmente Luciana surgiu no topo da escada rolante, esbaforida, parecia que tinha vindo correndo.
- Desculpe pelo atraso. – ela disse.
- Como fez pra chegar aqui?
- Meu chefe me trouxe.
- Hum.
- Ainda dá tempo de ver o filme?
- Aquele não, já começou.
- Quais são as nossas opções?
- Tem um de mocinho e bandido e outro de romance. Qual você quer?
- O de romance, claro.
- Então o de romance será. Vou comprar nossos ingressos.
Luciana ficou observando ele se afastar a passos calmos. Parecia tão nervoso quando a viu surgir na escada. Disfarçou, meio apatetado, mas a partir do momento que falou, parecia que o nervosismo passou. Enquanto ele encarava a pequena fila, ela se abanava, pra parar de suar. Também queria ver se não tinha dado bandeira. Se estava tudo no lugar, se o cabelo estava penteado e, principalmente, se não havia nenhuma marca nem cheiro que indicasse onde estivera durante a tarde.
Ricardo voltou feliz e lhe deu seu braço para que entrassem na sala. Ela sorriu sem graça e aceitou. Pobrezinho. Aquele rapaz era tão bonzinho, tão educado. Mas era pobre, preto, fodido. Sem cultura. Não era nada como o outro: rico, confiante, poliglota. Entendido de vinhos, carros e de como fazer dinheiro virar mais dinheiro. Só que aquele estava ficando velho. Quarenta anos já, ela só com vinte e dois.
Ele já tinha gordurinhas ao redor da barriga protuberante. Às vezes era chato, tinha manias, preocupações, problemas. Sem contar a esposa. Era um coitado, afinal, sofrendo na mão da megera, com tanto dinheiro, mas infeliz, gastando com lolitas feito ela.
Observou Ricardo ao seu lado enquanto procuravam seus lugares na sala. Ele não era assim. Podia não ter nada do que o outro tinha, mas era muito bonito, cavalheiro. Alto, do jeito que ela gostava, jovem, poucos anos mais velho do que ela. Tinha um sorriso bonito, uma voz forte. Se pegou pensando besteiras com ele antes mesmo do filme começar. Sentiu-se molhada.
Sentaram-se, afinal, e ela deu sua mão para ele. Ele gostou da iniciativa. Durante o filme, planejava guiá-lo até debaixo da saia curta, caso ele não tomasse a iniciativa. Com a mão direita, instintivamente revistou os bolsos nas dobras da saia.
Estava usando um vestido bonito, de marca, na altura do joelho, alças finas. Era preto com branco, uma graça. Foi o outro quem dera. Checou os bolsos escondidos nas dobras para ver se estava tudo no lugar. Encontrou algo que não devia no bolso direito. Seu estômago gelou.
Susana chorava.
Parava só para sentir o sangue ferver e a mágoa machucar forte no coração e então chorava mais. Soluçava, descontrolada. Os ombros chacoalhando. Enfiava a cara em um lenço já sujo e encharcado. Ela toda fedia à humilhação. A cara inchada, o cabelo bagunçado, a roupa feia de ficar em casa.
Vou ficar até tarde na reunião.
Reunião porra nenhuma.
Ele estava com a outra. A ninfetinha dele. Aquela menina devia ter o quê, 21? Talvez fosse até menor de idade. A assistente nova dele. Já tinha uma secretária, com cinqüenta anos e reumática, precisava de outra assistente pra quê? Pra foder, é claro. Assistente de boceta. Imagens dos dois em cima da mesa do escritório dele vinham à sua cabeça e as lágrimas rolavam pelo rosto.
Descobrira por acaso, mas já desconfiava. Ele ficou diferente. De repente passou a se arrumar melhor. A passar perfume, fazer direito a barba. Descobriu pelo jeito que os dois se olhavam na confraternização e como ele falava dela. Descobriu também pelo celular, com ela lhe mandando mensagens pornográficas, no maior descaramento. Ele respondendo que ela era louca, que a mulher podia ver.
Só de lembrar dessas coisas, o estômago de Susana dava cambalhotas tão violentas que ela quase perdia a força nas pernas. Não sabia o que tinha feito de errado. Ela não era velha, ela não era pobre, ela não era feia. Casara muito jovem com um partidão, amigo do seu irmão mais velho. Ela então tinha vinte e poucos anos, agora, tinha apenas trinta e três.
Tinha ligado pra ele várias vezes naquela noite, e nada. Atendeu só uma vez pra cochichar que estava em reunião. Reunião o cacete. Olhou pela janela e viu o carro encostar na garagem, abriu a porta lívida, pronta pra fazer um escândalo.
- Meu amor. – ele cumprimentou, cínico, envolvendo-a em seus braços.
Fedia a xampu de motelzinho barato.
- Você tava com ela, né? Aquela sirigaita! – acusou Susana.
- O que é isso, meu amor! – disse ele, levantando as mãos, defensivo.
Susana deu um sorriso cruel, tomando-lhe em um golpe a mão esquerda.
- O que é isso, meu amor? – perguntou ela, mostrando a palma da mão esquerda dele aberta. A aliança faltando no dedo.
Puta que pariu, esqueci a aliança.
Com um puxão, Maurício livrou a mão esquerda e socou ambas nos bolsos externos do paletó.
- Que bobagem a minha, tirei porque estava apertando, sabe como é, o calor, as mãos incham... – enrolou. Puta merda, a desculpa das mãos inchadas é a pior de todas. Revirou os bolsos externos, nada.
Susana cruzou os braços, fuzilando-o com os olhos.
Ele enfiou as mãos nos bolsos internos, depois em todos os da calça. Nada. Deu um sorriso amarelo.
- Que bobagem a minha. – repetiu. – Deve ter caído no carro.
- Sei. – rosnou Susana.
Maurício deu dois passos vacilantes para trás e depois correu para o carro. Acendeu a luz. Checou porta-luvas, porta-trecos, embaixo dos bancos. Nada. Ergueu a cabeça com cara de bobo e de derrotado.
- Que foi, o gato comeu sua língua? – desafiou Susana, os olhos voltando a se encher de lágrimas.
- Que bobagem a minha. – disse ainda uma terceira vez, com a certeza absoluta que estava fazendo papel de idiota. – Deve ter escorregado dos meus dedos enquanto eu lavava as mãos.
- Tá me achando com cara de idiota, né?
- Está no escritório. – disse por fim. – Eu vou buscar e chego com ela aqui, prometo. – entrou no carro e saiu, cantando pneus.
Luciana ignorou as vibrações do celular três vezes até dizer que precisava ir ao banheiro e sair. Atendeu um Maurício puto e desesperado. Disse que estava no meio do filme, não podia sair. Falou pra qual restaurante eles iam depois. Sugeriu que ele fosse no escritório tomar uma dose do uísque que ele mantinha na gaveta e fizesse uma hora, pra relaxar.
Quando ela estivesse no restaurante, ela dava um toque e ele podia ir lá buscar. Mandou ele ficar tranqüilo. Desligou o celular tensa. Homens são tão imaturos, todos eles. Ela não estava realmente preocupada com a situação, tinha uma sensação besta de controle até ele ligar xingando-a tudo. Os idiotas perdem a cabeça por qualquer coisa.
Voltou para a sala, sorriu para Ricardo e perguntou “o que foi que eu perdi?”, ele só sorriu em resposta, meio sem graça. Ela se sentou e sorriu sem jeito de volta, tentando disfarçar a tensão. Respirou profundamente. Enfiou a mão no bolso e revirou a aliança pesando meia tonelada em seus dedos.
Maurício destrancou a gaveta, encheu um copo de uísque e virou goela abaixo, cowboy, mesmo geralmente tomando com gelo e devagar, contando vantagem para os clientes. Sentou-se na cadeira, puto. Aquela putinha tinha pego a aliança dele de propósito, era pra foder com o seu casamento.
A piranha queria causar intriga, chutar o balde, derrubar a casa. Ela devia estar rindo dele, contando os minutos pra dar pro tal negão pauzudo que ela conhecera. Não ia ficar assim, não mesmo. Na segunda-feira ela ganhava rua. RUA. Justa causa. Ia sumir com alguma coisa e enfiar na mesa dela. Chamá-la de ladra pra todo mundo ouvir. Acusar de cleptomaníaca.
Gastara uma fortuna com aquela putinha pra ela lhe aprontar uma dessas. Mulheres são todas iguais. Falam que não querem nada sério, que não querem envolvimento e quando é fé, dá nisso. Estava destruindo o casamento dele. Não era amor, ela queria o dinheiro dele igual a Susana antes dela. Duas interesseiras, marcando o território com a boceta. Só faltava mijarem nele feito cachorros num poste. Não ia ficar assim não. Ia dar um jeito nela e depois na mulher.
Abriu a gaveta pra guardar o uísque e observou longamente outro objeto que guardava lá. Recebeu uma mensagem de Luciana. Hesitou por um instante. Guardou o uísque. Botou o objeto no bolso interno do paletó e saiu.
Ricardo reparou que Luciana estava agindo de forma estranha desde que entraram no cinema. Parecia suar frio, tinha até ido ao banheiro. Será que estava se sentindo bem? Nem se tocaram durante o filme. Quando acabou, ele perguntou se ela estava bem.
- Sim, é só estômago vazio. Vamos para o restaurante. – ela disse, forçando um sorriso.
Pegaram um táxi. Chegando lá, ela pediu licença mais uma vez. Mal tocou na comida, parecia ansiosa, nervosa por alguma coisa. Ele tentou puxar conversa, ela não deu muita bola, estava distante. Perguntou se ele não ia comer. Ele disse que estava indisposto. Na verdade, só tinha dinheiro pra pagar a janta dela, mas por causa da tensão, acabou pedindo um chopp de cerveja preta. Bebeu em grandes goles.
De repente o celular dela tocou, ela pediu licença novamente, mas ao invés de ir ao banheiro, foi para a porta do restaurante. Ricardo achou estranho e foi atrás. Ela foi até a esquina. Estava escuro. Um homem desceu de um carro e começou a bater boca com ela. Ela tirou algo do bolso e atirou contra ele, ele foi pra sarjeta, procurar.
De longe, Ricardo viu o brilho e o tilintar do objeto no chão confirmou suas suspeitas. Sentiu o estômago ficar frio e gritou:
- Luciana?
Neste exato momento ela se virou. O homem não parecia tê-lo visto. Sacou um revólver mirrado do bolso interno do paletó e deu três tiros na cabeça dela. Ricardo não conseguiu conter um grito enquanto ela caía. O homem correu para dentro do carro e foi embora.
Num assomo de coragem, Ricardo enfiou-se em um táxi que estava no estacionamento.
- Siga aquele carro. – ordenou, do mesmo jeito que tinha visto nos filmes.
- É pra já, chefe. – respondeu o taxista. Sempre quisera fazer aquilo.
Susana observou Maurício enfiar o carro de qualquer jeito na garagem e descer armado. Gritou e correu para o fundo da sala enquanto ele escancarava a porta.
- Toma aqui essa merda! – ele gritou, jogando a aliança recuperada na sarjeta na direção dela. – Isso aqui não vale nada!
Encolhida no canto e tomada por lágrimas, Susana sentiu o medo reverberar pelo seu corpo enquanto seu marido se aproximava lentamente, cobrindo-a de palavrões e ofensas, chamando-a de dondoca, de interesseira. Sentiu sua bexiga aliviar. Um naco de vergonha cobriu suas bochechas.
E agora meu Deus? Ela não tinha pra onde correr, ela não tinha como se defender. Ela precisava de um milagre, ela precisava de um herói.
Ricardo irrompeu pela sala gritando como um gaulês enfurecido. A adrenalina e o medo em seu corpo deram-lhe temeridade e força. Surpreso, Maurício mal teve tempo de se virar. Ricardo jogou-se contra ele feito um touro. Era jovem, mais alto, mais forte. Maurício era um coroa assustado com uma arma.
Na briga, Ricardo levou a melhor e tomou-lhe a arma. Maurício arregalou os olhos. Ricardo, numa careta de fúria, deu dois golpes de coronhada na cara do ricaço. O primeiro atordoou, o segundo fez um estrago. Maurício caiu inerte com os olhos entreabertos, cuspindo alguns dentes, engasgando com o sangue.
Antes de apagar, Maurício ainda teve tempo de olhar nos olhos do negão. Droga, ele só queria assustar Susana. Mostrar pra ela quem é que mandava naquele casamento. O sujeito era grande. E bonito, do jeito que Luciana dissera. Luciana. Que merda ele tinha feito. Esfregou a língua com gosto de sangue nos locais em que lhe faltavam os dentes. Fechou os olhos e deixou o torpor vir. Ainda sentiu o negro botar os dedos no seu pescoço, para ver se ele ainda estava vivo. Claro que estava vivo, seu puto. Esse cara era um ignorante, do jeito que Luciana dissera.
A mulher se aproximou devagar, como um animal assustado. As lágrimas tinham secado em seu rosto. Ricardo tinha a boca seca e arfava, se sentia poderoso, feito um animal. Largou euforia e revólver de lado e se aproximou dela.
- Você está bem?
Ela assentiu e ele puxou-a para os seus braços. Mesmo desarrumada e marcada pelo descuido e desespero, ela era muito bonita.
- Vai ficar tudo bem agora. – ele disse. – Você está segura.
Susana se deixou ficar nos braços fortes de Ricardo, até sua respiração acalmar. Podiam ouvir as sirenes da polícia chegando. Ricardo reparou que ela tinha olhos bonitos.
- Você tem olhos bonitos, senhora. – disse ele, e tentou dar um sorriso falho de conforto.
- Pode me chamar de Susana. – ela disse, erguendo a cabeça para ele. Ele era seu herói, seu salvador, um homem como Maurício jamais seria. Ela era uma esposa fiel e amável, sofrida pelo marido canalha, merecia um homem de verdade.
- Meu nome é Ricardo. – disse ele, olhando-a nos olhos.
Se beijaram.